Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir o nãos que a vida me enfia goela abaixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezada-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar café e continuar.

Às vezes a gente vai-se fechando dentro da própria cabeça, e tudo começa a parecer muito mais difícil do que realmente é. Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheia de espinhos – e corto relacionamentos com a maior frieza. É, preciso acabar com esse medo de ser tocada lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso.

Tudo isso me perturbava porque eu pensara até então que, de certa forma, toda minha evolução conduzira lentamente a uma espécie de não-precisar-de-ninguém. Até então aceitara todas as ausências e dizia muitas vezes para os outros que me sentia um pouco como um álbum de retratos. Carregava centenas de fotografias amarelecidas em páginas que folheava detidamente durante a insônia e dentro dos ônibus olhando pelas janelas e nos elevadores de edifícios altos e em todos os lugares onde de repente ficava sozinho comigo mesmo. Virava as páginas lentamente, há muito tempo antes, e não me surpreendia nem me atemorizava pensar que muito tempo depois estaria da mesma forma de mãos dadas com um outro eu amortecido — da mesma forma — revendo antigas fotografias. Mas o que me doía, agora, era um futuro próximo.
Mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar.

Só quero ir indo junto com as coisas, ir sendo junto com elas, ao mesmo tempo, até um lugar que não sei onde fica, e que você até pode chamar de morte, mas eu chamo apenas de porto.
Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou “o que foi?” – perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor – essa pessoa – continua vivo(a), há então uma morte anormal.

A resposta da sua pergunta:

… então os meus braços não vão ser suficientes pra abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme só olhando você sem dizer nada só olhando e pensando meu Deus como você me dói de vez em quando.

Ao fundo, To Know Him Is To Love Him – Amy Winehouse.

‘Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.’ Clarice Lispector.


Hoje fazem 32 anos Clarice morreu e essa imagem dela escrevendo sempre me deixa boquiaberta, numa felicidade clandestina.

Além de musa inspiradora do blog, ela é quase uma poça d’agua , onde me espelho todos os dias. É incrível como em cada pedacinho da minha vida, alguma frase dela, cabe exatamente a mim, ao meu intímo.

Não sei se isso é bom ou mau, o fato é que sempre me cabem. Em qualquer que seja o momento.

Sinto uma coisa muito forte aqui dentro me dizendo pra seguir nesse caminho mesmo.

Essa coisa forte, me abraça com tanta ternura quando penso na vida calma e tranquila que pretendo levar de alguns dias em diante, que parece um abraço de criança: quente, aconchegante e sincero.

Clarice dizia que era um mistério para si mesma. Comigo não é diferente.

Quando penso em mim, me assusto ao perceber que não tenho definições para o meu estranho jeito de ser e de ver a vida com meus olhos que a tudo querem enxergar e absorver.

Me sinto feliz com a possibilidade de recomeços. Rotina, tédio e mesmice não fazem pólo certo comigo, nunca fizeram.

Eu preciso de movimento, mudança.

P.S : Separô diante de mim quando minha tristeza era parte do dia…  com você aqui, fica tudo mais claro, pra entender, pra viver, pra sentir.

Pressentimento

(Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho)

Ai ardido peito
quem irá entender o seu segredo
quem irá pousar em teu destino
e depois morrer de teu amor
ai mas quem virá
me pergunto a toda hora
e a resposta é o silêncio
que atravessa a madrugada
vem meu novo amor
vou deixar a casa aberta
já escuto os teus passos
procurando o meu abrigo
vem que o sol raiou
os jardins estão florindo
tudo faz pressentimento
que este é o tempo ansiado
de se ter felicidade…

P.S.: às vezes precisamos ouvir certas canções. Nesse caso específico, retomá-las. “Você não é um rio cheio que eu não possa atravessar!”

Não quero que tudo isso seja em vão, não quero que simplismente o vento leve embora como pó.

É que ando mergulhada numa atmosfera duvidosa, onde a realidade, os sonhos e os desejos de um futuro muito próximo, se misturam entre planos, incertezas, desconfianças, vontades e apegos. Eu queria poder tocar pra ter certeza, te juro.

Essa vontade dói igual arame farpado cravado na pele, nem queira sentir… O ano tá quase no fim e o que eu quero é paz pro meu coração e pra minha alma que andam meio atormentados.

Ano novo promete vida nova, casa nova, rotinas, hábitos … tudo novo. Espero ser mais saudável, mas alerta e mais confiante em mim mesma, por que não dá pra ficar a vida toda sempre achando que tô pisando em falso… isso cansa, fere.

Não quero a certeza de tudo, quero garantias. De que vou ter hábitos saudáveis, horários. Quero dormir todas as noites sem ter que tomar os comprimidos que me oprimem o corpo todo no dia seguinte.

Ah, eu ia esquecendo de uma coisa, quero calma, muita calma pra tudo. Paciência  e organização também, com as coisas e com as pessoas.

Quero chegar em casa do trabalho, sentar e ler, sorrir, tomar um suco de fruta na varanda …

Nesses ultimos dias desse ano, vou fazer uma limpeza geral.

Vou tirar de mim tudo e todos que de alguma forma, já não me servem mais, que me deixam amarrada a  coisas que eu não posso ter e nem quero mais, custa muito pedir uma vida nova, mais organizada, mais tranquila? Acho que não e espero ser coerente o bastante quando peço isso e enquanto imagino meu novo canto … tranquilo e aconchegante como eu sempre quis.

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Ver é permitido, mas sentir já é perigoso.

Gosto de pensar assim: se a gente faz o que manda o coração, lá na frente, tudo se explica. Por isso, faço a minha sorte. Sou fiel ao que sinto. Aceito feliz quem eu sou. Não acho graça em quem não acha graça. Acho chato quem não se contradiz. Às vezes desejo mal. Sou humana. Sou quase normal. Não ligo se gostarem de mim em partes. Mas desejo que eu me aceite por inteiro. Não sou perfeita, não sou previsível. Sou uma louca. Admiro grandes qualidades. Mas gosto mesmo dos pequenos defeitos. São eles que nos fazem grande. Que nos fazem fortes. Que nos fazem acordar. Acho bonito quem tem orgulho de ser gente. Porque não é nada fácil, eu sei. Por isso continuo princesa. Continuo guerreira. Continuo na lua.